Suor, poeira e cicatrizes...

Três Homens em Conflito (The Good, the Bad & the Ugly/1966) Direção: Sergio Leone Com: Clint Eastwood (homem sem nome), Eli Wallach (Tuco), Lee Van Cleef (Angel Eyes) etc
A estréia brasileira de "Kill Bill Vol. 2", filme que traz carinhosas citações aos spaghetti westerns, inspira homenagem também do Caixa Preta. O gênero desapareceu com o tempo, em parte porque a mina de ouro descoberta pelos italianos chegou ao fim, mas também porque os filmes de Velho Oeste, numa forma geral, foram minguando ao longo do tempo. Obviamente, desse período restaram alguns clássicos, como "Django", de Sergio Corbucci, e "O Dólar Furado", de Giorgio Ferroni, mas nada supera em inventividade a trilogia de Sergio Leone protagonizada por um personagem sem nome.
"Por um Punhado de Dólares" e "Por um Punhado de Dólares a Mais" são os dois primeiros filmes da série, que é concluída pela obra prima "Três Homens em Conflito". De fato, os filmes foram enquadrados como trilogia graças a assinatura de Leone e as presenças marcantes de Lee Van Cleef e Clint Eastwood, já que, na prática, eles apresentam tramas próprias e personagens diferentes.
"Três Homens em Conflito" apresenta a história de um sujeito bom (o anônimo interpretado por Clint Eastwood), um mal (Olhos de Anjo, vivido por Van Cleef) e um feio (Tuco; Eli Wallach). O destino une os três na aridez do Velho Oeste em busca de uma fortuna em ouro enterrada num cemitério. Cada qual sabe parte do segredo que os levará a encontrar os 200 mil dólares, mas ninguém confia no parceiro o suficiente, mesmo porque, a confiança deles está baseada na mira do revólver. Poucas vezes um filme apresentou tantas trapaças quanto "Três Homens em Conflito". O mais próximo que o cinema recente chegou desse bando de personagens traiçoeiros foi com o argentino "Nove Rainhas", ainda que essa comparação talvez faça sentido apenas na minha cabeça. De qualquer forma, o filme de Leone retrata um mundo extremamente duro, onde tudo se resolve à bala e onde rostos suados, poeira e cicatrizes nos acompanham durante 3 horas. Não há espaço para mulheres na história: reina aqui a estética do macho-invocado.
O toque de Midas de Leone foi situar essa saga de cobiça, morte e traição durante a Guerra Civil americana, dando ao filme um background histórico e possibilitando cenas antológicas, como a da explosão da ponte. A química entre os atores é outra virtude que faz de "Três Homens em Conflito" um filme inesquecível. Eastwood, Van Cleef e Wallach fazem parte de uma escola de atuação que não existe mais. É tudo muito subjetivo, resolvido com olhares e sutilezas, ao invés de atuações "over". Clint, por exemplo, leva para o western a figura do cara "cool", aquele que mantém a frieza com a corda literalmente no pescoço. Seu jeito econômico de interpretar foi copiado à exaustão nas décadas seguintes por qualquer ator que precisasse encarnar um anti-herói ou algum vingador solitário. Lee Van Cleef, que infelizmente tem menos tempo na tela do que merece, vive aqui um dos melhores vilões da história do cinema, comparável ao Reverendo Harry Powell (Robert Mitchum) em "O Mensageiro do Diabo", de 1955. O olhar do sujeito (ironicamente chamado Olhos de Anjo) congela a espinha já nos primeiros minutos de filme, antes mesmo dele sacar a pistola para matar um homem, uma criança e um velho doente. Os rostos de Van Cleef e Eastwood parecem desenhados à mão para seus personagens. Eli Wallach, por sua vez, é a personificação exata do fanfarrão. O mexicano Tuco é um personagem tão boca suja e desprovido de caráter, que ganha a simpatia imediata daquele espectador mais politicamente incorreto.
"Três Homens em Conflito" tem algo da linguagem dos quadrinhos, planos e contra-planos muito peculiares e uma relação absolutamente simbiótica com a trilha sonora. É quase impossível referir-se ao filme sem citar, automaticamente, a música magistralmente composta por Ennio Morricone. A parceria de Leone e Morricone, colegas desde os bancos da escola, é a chave do sucesso nessa trilogia (e também no posterior "Era Uma Vez no Oeste", clássico derradeiro do gênero). A música de Morricone extrapolou o filme e tornou-se parte da cultura pop. Alguns de seus temas foram reaproveitados em comerciais de TV, aberturas de shows de rock (Ramones, Metallica etc) e até mesmo em outros filmes (como "Kill Bill", claro). Sabe-se lá onde Morricone buscou inspiração para esse score musical, que tornou-se sinônimo de bang-bang. Na teoria, côros, orquestra e guitarras com vibratto reminiscente da surf music não têm nada a ver com o Velho Oeste, mas na prática funciona. Mais do que isso, a música casa perfeitamente com as imagens acachapantes registradas por Leone nos desertos da Espanha.
Se até hoje soa como excentricidade essa safra de westerns feitos na Itália, Sergio Leone, numa antiga entrevista, deu a resposta que todos deveriam ouvir: "Obviamente, os americanos ficaram com um pé atrás a respeito dos meus filmes. Se você parar pra pensar, isso é bem absurdo, porque não é fácil trabalhar com um gênero que você conhece, se tanto, de segunda mão. Eu acho estranho que (os americanos) tenham se surpreendido porque, com 'Ben Hur', 'Quo Vadis' e 'Spartacus', eles invadiram o nosso território tão descaradamente quanto eu invadi o deles". Faz sentido.

DICA: A trilha sonora de "Três Homens em Conflito" ("The Good, the Bad & the Ugly") foi recentemente editada em CD pela EMI, aproveitando o lançamento do DVD no Brasil via MGM. É a primeira vez que a trilha é lançada na íntegra, como na edição original italiana. Imperdível!!
Escrito por Mr Eddy às 03h08
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Kung fu com arte

Kill Bill vol.1-2 (idem/2003-04) Direção: Quentin Tarantino Com: Uma Thurman (A Noiva), David Carradine (Bill), Michael Madsen (Budd), Lucy Liu (O-Ren Ishii), Vivica A. Fox (Vernita Green), Sonny Chiba (Hattori Hanzo), Darryl Hannah (Elle Driver) etc
Estreou nesse último fim de semana o tão aguardado "Kill Bill 2", de Quentin Tarantino. Ao final do primeiro volume, já havia ficado a sensação que o diretor não fez dois filmes, mas apenas um, dividido em duas partes. Isso agora é uma certeza. "Kill Bill", que é apresentado em vários capítulos, foi separado em dois longas-metragens por questões meramente mercadológicas. As mais de 4 horas de duração seriam pouco palatáveis para o espectador das salas multiplex da vida e, partindo o filme em dois, criou-se um leque ainda maior de agregados (duas estréias, dois DVDs etc). As opções do estúdio, nesse caso, pouco atrapalham o resultado final: "Kill Bill" é um clássico instantâneo e obra de um diretor no auge da forma.
Tarantino é um cineasta-cinéfilo e isso transparece em cada um de seus trabalhos. Mesmo assim, não deixa de surpreender as tantas escolas de cinema e gêneros que são homenageados de uma só vez em "Kill Bill". O primeiro "Matrix", dos irmãos Wachowski, era uma salada de referências pop, mas os dois volumes de "Kill Bill" levam a idéia de citar filmes, quadrinhos e o que quer que seja ao extremo. A fonte primordial de inspiração são os filmes de kung fu da década de 70 e os spaghetti westerns.
Da vinheta de abertura de "Kill Bill vol. 1", que recria a apresentação das velhas sessões de artes marciais, até os enquadramentos, a reutilização de trilha sonora clássica (tem Ennio Morricone a dar com pau) e a ótima escalação de atores, entre os quais o japonês Sonny Chiba e o sumido David Carradine (ressuscitado tal qual John Travolta em "Pulp Fiction"), tudo é feito na base da memória afetiva do diretor. Tarantino é norteamericano e tem 41 anos, mas quem é brasileiro e tem mais de 30 conseguirá se identificar facilmente com os objetos de sua homenagem: até a metade dos 80's, a TV Record cansou de exibir westerns italianos e filmes fajutos de kung fu nas sessões "Bang Bang à Italiana", "Poltrona 7" e "Sessão Dragão". Assim, a linguagem cinematográfica de diretores como Eugenio Corbucci, o nonsense das histórias de Shaolin, as acrobacias de Bruce Lee ou as "canastrices" de Giuliano Gemma estão, de alguma maneira, enraizadas em nosso subconsciente. Quentin Tarantino, descolado como ele só, reprocessou essa escola de cinema barato com os cuidados do artesão da imagem que ele realmente se tornou. Mais do que isso, Tarantino também constrói uma narrativa única, que passeia pela fábula, abusa de jargões dos "bad guys" de seus outros filmes e às vezes descamba para mais (e brilhantes) citações pop. "Kill Bill" é aparentemente um filme sanguinolento sobre honra e vingança, mas, especialmente em sua conclusão (o volume 2 que está nos cinemas), mostra-se também uma nada piegas história de amor.
Cada fotograma de "Kill Bill" reproduzido na tela grande revela uma obsessão com a perfeição. Luz, enquadramentos, cortes e direção de arte são de cair o queixo. Quarentão com pinta de astro de rock, Tarantino tem as virtudes de vários (bons) diretores, e o que é melhor: não parece se levar tão a sério. O que explicaria o banho de sangue no volume 1 (mais especificamente a cena da matança numa casa noturna de Tóquio que parece tirar onda com Smith, o multi-agente de "Matrix")? E todas aquelas cabeças decepadas? E o mestre Pai Mei (Gordon Liu), que é a materialização de todos os exageros dos antigos filmes B de kung fu?? Tarantino é capaz de ter rodado essas cenas para atender unicamente a seus gostos pessoais, dando uma banana para o que "pega bem". No fim, ele mostra talento para transformar mesmo as maiores bizarrices em algo totalmente cool (e isso vem desde a orelha decepada em "Cães de Aluguel"...).
A utilização esperta da trilha -- que vai de música japonesa a Morricone e Johnny Cash --, os excelentes personagens secundários e as locações em diversas cidades (Pequim, Los Angeles, algum lugar do México) são outros detalhes caprichosos de um diretor que está longe de demonstrar qualquer sinal de cansaço. Se a ótima geração que revitalizou o cinema ianque nos anos 70 (Woody Allen, Scorsese, Brian DePalma etc) já parece em vias de se aposentar artisticamente, é animador poder assistir, na estréia, a obra de um cineasta com pleno domínio de seus poderes e que ainda não opera em piloto automático.
Para quem passou incólume a "Kill Bill" vale uma dica: consulte a programação dos cinemas, assista ao volume 1 em VHS/DVD e, de casa, saia direto para pegar a conclusão da saga na telona. Garantia de quatro horas com o melhor que o cinema, como arte e entretenimento, podem te propiciar.

Escrito por Mr Eddy às 17h15
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